Novembro Azul e Outubro Rosa são duas campanhas nacionais que há alguns anos tem como objetivo principal trazer à sociedade o tema Rastreamento Precoce de Câncer, nestes casos, o câncer de próstata e câncer de mama. Porém, do ponto de vista de saúde pública, há particularidades sobre a melhor forma de fazer o rastreamento e isso nem sempre condiz com o que os meios de comunicação em massa veiculam. Logo, este também é um momento para se falar um pouco sobre Health Literacy – termo que não existe em português mas que tem uma ótima definição na Wikipédia: ‘Health literacy is the ability to obtain, read, understand, and use healthcare information in order to make appropriate health decisions and follow instructions for treatment’.

Há alguns anos atrás, acreditava-se que, se homens sem sintomas realizassem um exame de sangue para avaliar os níveis do antígeno prostático específico – também chamado exame de PSA – e/ou fizessem o toque retal periodicamente, os médicos seriam capazes de combater o câncer de próstata com antecedência e salvar mais vidas. Contudo, resultados de estudos mais recentes, e com grande amostragem de pacientes, fizeram com que diversas instituições de saúde ao redor do mundo atualizassem suas diretrizes sobre o rastreamento do câncer de próstata, modificando ou, pelo menos, refinando as suas recomendações. O que se descobriu em alguns desses estudos é que não havia uma diminuição estatisticamente significante na mortalidade dos homens que faziam esses exames de rastreamento, ou quando existia, que era muito pequena. O benefício desses exames era óbvio para alguns subgrupos de homens, como por exemplo aqueles que apresentam sintomas urinários ou aqueles que tem antecedente familiar de primeiro grau que tiveram câncer de próstata com menos de 65 anos. Porém, outros estudos também recentes e com grande amostragem, demonstram diminuição da mortalidade da ordem de 25%. O resumo é que não há um consenso na literatura médica sobre qual a melhor recomendação: fazer ou não fazer o exame de rastreamento.

O raciocínio imediato de qualquer pessoa é que se existe alguma mínima chance dela estar com câncer, o melhor caminho é começar o tratamento o quanto antes e da maneira mais efetiva a fim de extirpar essa massa possivelmente tumoral. Mas o que muitas pessoas desconhecem são as várias complicações que existem nesse meio do caminho, desde os resultados falsos positivos, até as complicações cirúrgicas de massas tumorais que nunca chegariam a gerar sintomas. Um conceito dentro da medicina chamado Iatrogenia se refere aos eventuais malefícios que uma intervenção médica pode causar. Qualquer ato médico tem que ser ponderado considerando as probabilidades de desfecho benéfico ou maléfico para a saúde do paciente. Logo, a melhor maneira de se avaliar a necessidade desses exames é individualizando cada uma das condutas levando-se em consideração o histórico do paciente, as doenças de base, o histórico familiar, sintomas urinários e etc. 

Entender o porquê o rastreamento de uma doença como essa pode não trazer benefício a população não é simples. Um exame falso positivo pode levar um paciente a fazer uma biópsia desnecessária e esse procedimento invasivo pode ter complicações graves. Além disso o câncer de próstata tem uma agressividade biológica não uniforme e que na maioria dos indivíduos apresenta comportamento indolente e de lenta evolução, mas que em outros podem levar a complicações locais, metástase e morte.

Devo fazer os exames de rastreamento como as campanhas publicitárias indicam? Isso é uma decisão difícil, particular, e que deve ser devidamente discutida com seu médico. A questão mais importante discutida é a necessidade dos indivíduos se informarem e terem a capacidade de juntamente com um profissional de saúde tomarem decisões compartilhadas a respeito da sua saúde; é o indivíduo melhorar sua ‘Health Literacy’

Por fim, gostaria de compartilhar o posicionamento da Sociedade Brasileira de Urologia; e desejo que o leitor também leia na terceira frase deste trecho a mensagem mais importante de todo Novembro Azul :

A Sociedade Brasileira de Urologia mantém sua recomendação de que homens a partir de 50 anos devem procurar um profissional especializado, para avaliação individualizada. Aqueles da raça negra ou com parentes de primeiro grau com câncer de próstata devem começar aos 45 anos. O rastreamento deverá ser realizado após ampla discussão de riscos e potenciais benefícios, em decisão compartilhada com o paciente. Após os 75 anos, poderá ser realizado apenas para aqueles com expectativa de vida acima de 10 anos.“. 

 

Sobre o Autor: Júlio César Barbour é Bacharel em Física pela Unicamp, médico pela Faculdade de Ciências Médicas da  Santa Casa de São Paulo, Head de Saúde da Semantix.

 

Bibliografia:

1- http://www.saude.gov.br/saude-de-a-z/cancer

2 – https://en.wikipedia.org/wiki/Health_literacy

3-https://portaldaurologia.org.br/medicos/destaque-sbu/nota-oficial-2018-rastreamento-do-cancer-de-prostata/

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