Escolha uma Página
O quão próximos estamos do 1° inverno da IA Jurídica?
16 de janeiro de 2020

Desatando, em conjunto, o aparente nó górdio.

Já é notícia comum no ambiente jurídico — ao menos nos grandes centros –, a possibilidade do emprego de alta tecnologia (IA) na rotina dos operadores do direito. Tal popularidade é decorrência da explosão do número de empresas focadas no desenvolvimento de soluções que endereçam “dores” comuns da gestão jurídica, seja de escritórios e/ou departamentos jurídicos, confirmando, sobremaneira, a carência tecnológica (até hoje) existente no mundo forense. 

Além do aumento justificado de empresas, em razão do apelo mercadológico, é importante destacar, ainda, que a velocidade imprimida por essas novas empresas na construção de soluções decorre da utilização de modelos de trabalho distintos dos ritos comuns e conhecidos pela grande maioria dos advogados, sendo o mais conhecido o método Agile

Aliás, inúmeros Venture Capital Founds, por exemplo, realizaram (e estão realizando dia após dia) aportes financeiros em empresas/startups focadas no ambiente jurídico, tanto no exterior quanto no Brasil. Tais investimentos validam, de um lado, o tamanho do mercado e a expectativa do uso, e, de outro, a carência do mercado jurídico e o retorno econômico-financeiro derivado da aplicabilidade de conceitos computacionais no cotidiano dos operadores do direito.

Contudo, se torna necessário que sejamos cautelosos quando a estas altas expectativas que estão sendo alimentadas para no mundo Lawtech. Aparentemente, caminhamos pela primeira vez para uma espécie retração da IA Jurídica nacional, caso não desatemos, em conjunto, o aparente nó górdio que entrelaça nosso cotidiano.

Diz-se isso, pois, muitas vezes há um descolamento entre o real e o imaginário; ou seja, existem inúmeras formas de apoiar o operador do direito, porém, a tecnologia, para alguns casos, ainda não está “madura” (ou não há dados suficientes para aplicação de determinados modelos de Data Science, por exemplo), carecendo de maturação para a entrega de soluções condizentes com a expectativa dos operadores do direito. 

Não existe, neste sentido, um plug and play mitológico, capaz de responder a todos os anseios presentes no universo forense, visto que há, sim, um nítido processo de inovação. É preciso entender que há uma realidade técnico-computacional de alta complexidade e que, muitas vezes, necessita de árduo esforço para ser desenvolvida e maturada a fim de levar ao mercado soluções capazes de otimizar os processos existentes. E, caso não exista a real compreensão do ambiente técnico-computacional-jurídico poderá acarretar na inibição/atraso na mentalidade daqueles que se propõem a trabalhar neste meio.

Assim, considerando o cenário desenhado, precisamos unir nossas forças para que não sejamos carregados, talvez, ao primeiro inverno da IA Jurídica nacional, momento no qual poderemos passar por uma contratura, baseada na descrença e na quebra da expectativa do público jurídico em geral; ou seja, efeito diretamente proporcional aos modelos de comercialização e às promessas realizadas no sentido da solução absoluta e completa para a eliminação das tarefas enfadonhas, bem como do imaginário da “atração de competência” para tomada de decisões por parte do “robô-advogado”.

Ao contrário dos invernos da Inteligência Artificial geral, conforme narrado por Nick Bostrom, no seu livro Superinteligência, ocasionados em decorrência da impossibilidade de aplicação das visões, em razão da ausência de hardwares (maquinário) e técnicas computacionais, como, por exemplo, Big Data, aquele período de retração possivelmente próximo para a IA Jurídica nacional, tem seu nascedouro justamente na antecipação de algumas visões que se descolam da realidade técnico-computacional-jurídica, causando instabilidade em algo que, hoje, já pode ajudar de forma exponencial o operador do direito.

O paradoxo existente, mas devemos estar atentos a possibilidade da utilização excessiva e desproporcional das aplicações de IA no ambiente Jurídico. Existem, hoje, inúmeras possibilidades factíveis e maduras que conseguem auxiliar os operadores do direito, porém, antecipar situações hoje inexequíveis somente prejudicará o ecossistema, causando, talvez, um dano de difícil recuperação.

Não obstante, é preciso compreender que há, sim, uma especulação mercadológica necessária para evolução do ecossistema, já que, muitas vezes, uma ideia endereçável somente será testada na prática quando encontrar um player disposto a apostar/comprar uma solução/algoritmo que solverá a questão.

A grande questão, então, deve ser exteriorizada pela ideia da equação ótima entre a necessidade do mercado, que seria o senso de necessidade endereçada pelo uso de high-technology (realizando a diferenciação entre state of the art vs excel, e. g.) e a real aplicação tecnológica, a fim de evitarmos um ingresso num período de descrença no real propósito do uso de tecnologias, principalmente aquelas que demandam tecnologia de última geração.

Para além dessa diferenciação, culturalmente, percebe-se que o profissional do direito ainda não conseguiu segregar, de forma límpida, os papéis; “o que eu (preciso) faço” e “o que a máquina faz”. Isso conduz, igualmente, ao problema da expectativa. O papel e o uso da tecnologia ainda precisam ser explorados, a fim de que o usuário – operador do direito – possa compreender, com exatidão, qual o real substrato fornecido pela máquina, considerando sua capacidade de localização de padrões e tendências.

O desvio da “caminhada ao inverno”, assim, passa necessariamente pela educação e pela disseminação de informações sobre os reais aspectos/impactos do uso e da importância da adoção de ferramentas e soluções baseadas em algoritmos hábeis na solução de ações mecanicistas e facilitadoras no momento da tomada de decisões e sobre o quanto o operador do direito é essencial nesse processo e aplicação de métodos.

A questão ilustrada no presente artigo indica, en passant, a lenda do nó górdio, quando um aparente desafio intransponível, visto por todos, pode ser resolvido por um simples caminho conjunto de entendimento; o cenário da IA Jurídica nacional demanda que todos pratiquem a conscientização permanente e informacional acerca dos benefícios presentes e desafios futuros.

À vista disso, precisamos, em conjunto, desatar esse aparente nó górdio que afugenta tantas pessoas do convívio e das aplicações tecnológicas-jurídicas tão capazes de otimizar a rotina e facilitar a gestão dos operadores do direito.

É necessário, portanto, continuar a propagar os benefícios do uso da tecnologia no ambiente jurídico, porém com parcimônia e discernimento. Não há de se esquecer que sempre haverá decisão humana e a indicação da máquina servirá sempre de suporte ao operador do Direito.

Sobre o Autor:  Vitor Maimone Saldanha, Head of Legal na Semantix. Membro do Conselho da Associação Brasileira de Inteligência Artificial – ABRIA.

Referências:

https://www.forbes.com/sites/valentinpivovarov/2019/01/15/legaltechinvestment2018/#9d5f5e87c2ba

BOSTROM, Nick. Superinteligência: caminhos, perigos, estratégias para um novo mundo. Pág. 21 – 40.

Participe do Meetup: Eficiência Jurídica Financeira.

Inscreva-se no Link: http://bit.ly/meetupAIJUS

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine a nossa newsletter e fique por dentro do que acontece na Semantix